quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Cena musical contemporânea de São Paulo se fortalece e é alvo de documentário

Alguma coisa acontece no coração da nova música popular brasileira quando cruza certas esquinas paulistanas neste início de século XXI. Aos poucos, nos últimos anos, uma geração de artistas baseados em São Paulo, de diferentes motivações e origens (Paraná, Recife, Ceará, Rio e mesmo a capital paulista), vem trocando ideias, e-mails, arquivos MP3, mensagens no Facebook, links do MySpace - produzindo muito e alimentando uma cena que agora, madura, se configura como a mais consistente do país, apesar do pequeno alcance comercial. Pode ser cedo para afirmar, mas talvez pela primeira vez desde a década de 60, quando foram realizados os festivais e os programas da paulista TV Record (como "Jovem Guarda" e "O fino da bossa"), São Paulo concentre os olhares de quem está interessado nos rumos da futura MPB - antes, desde os tempos da Rádio Nacional, passando pela bossa nova e pelo Rock Brasil dos anos 80, o epicentro era o Rio. É o que acredita, por exemplo, Romulo Fróes , um dos personagens centrais dessa cena, que prepara um documentário "de dentro" sobre sua geração:

- São Paulo é grande e sua música é riquíssima, cada região tem sua cara. Há samba, rock... Mas o recorte que faço no documentário (com parceria da Mukeca Filmes) é bem específico, é uma cena que se concentra entre Barra Funda, Vila Madalena e Rua Augusta. É essa cena que me interessa, é nela que me reconheço.

Fróes fala de artistas como Curumin , Tulipa Ruiz , Fernando Catatau (e sua banda Cidadão Instigado ), Anelis Assumpção , Lulina , Guizado , Karina Buhr , Tatá Aeroplano , Rodrigo Campos , Leo Cavalcanti , Kiko Dinucci , Mariana Aydar , Maurício Takara , Bruno Morais , Marcelo Jeneci e Luísa Maita - apenas alguns nomes de uma lista bem maior. Com trabalhos diversos, eles se encontram em casas como o Studio SP, participam de discos e shows uns dos outros e assinam parcerias, tendo como ponto de contato - o ar indie-cool à parte - o diálogo com a tradição da chamada MPB, ladeado por outras tradições.

Rodrigo Campos - cantor e compositor cujo CD "São Mateus não é um lugar assim tão longe" foi apontado como um dos melhores de 2009 pelo GLOBO - resume:

- O que nos une, acredito, é a procura pela sintonia com o nosso tempo, o saber da tradição e a falta de reverência com a mesma, que nos permite ter uma reflexão sobre ela.

Romulo acrescenta:

- É uma geração desencanada, a gente não tem que ir contra nada. Arrigo Barnabé apontou um certo vazio nessa geração. Rogério Skylab falou em "distância" num texto que fez sobre meu trabalho. Eles estão certos, mas acho bom esse vazio, essa distância.

Maurício Tagliari, sócio da yb music (gravadora que congrega boa parte dessa geração, lançando inclusive os últimos discos da carioca Nina Becker e do baiano-carioca Lucas Santtana), lista exemplos:

- Tulipa Ruiz tem influência de guarânia e Stereolab, Dudu Tsuda gosta de John Cage, Romulo Fróes, de Nelson Cavaquinho, e todos eles estão tocando juntos. Tenho uma leitura disso quase como um neotropicalismo. Ou melhor, eles são neo-Mutantes, mais que neotropicalistas, até para fazer justiça a uma banda de São Paulo.

Fonte: http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2010/08/07/cena-musical-contemporanea-de-sao-paulo-se-fortalece-e-alvo-de-documentario-917345591.asp

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